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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Capítulo Extra 2 - Passado

Dezessete anos atrás na Irlanda, em meio aqueles campos verdes e frios havia uma casa rica, um tipo de fazenda e ali nessa casa nasceram duas crianças. Gêmeos, um menino e uma menina. Diante dos choros, das parteiras e da mãe esgotada, um homem sorria. Um sonho de um pai tinha se realizado, um filho homem, um herdeiro.
Mas é engraçado como as pessoas destroem o que elas mais amam, como os pais adoram frustrar os sonhos dos filhos “para o próprio bem” deles.
O menino foi chamado de Kasuya e a menina de Erin. A família deles, de nome Nayami era tradicionalista e rígida, o chefe dela e pai das crianças era um militar de renome no país e queria que o filho seguisse seus passos, fosse tão “bom” quanto ele. Aquela família era marcante por seus traços, pele bem clara e cabelos descoloridos que pareciam prateados, algo raro naquela região. Porem aquela família tinha seus segredos, era marcada por um tipo de frieza que levou a sua destruição.
Aos seis anos a infância daquele menino não existia mais, foi tomada pela obsessão de seu pai, O “treinamento” era muito duro e quando ele fracassava era trancafiado num calabouço embaixo da casa, punido, torturado ou tendo “lições” com o pai.
-Essa é a lei do mundo Kasuya, ou mata ou morre. – Era a frase preferida do seu pai, ele sempre a usava de pretexto para seus atos. Naquele dia o homem de longos cabelos esbranquiçados tinha levado o animal de estimação preferido da irmã do garoto, um coelho branco pequeno e dócil.

-Mas... É o amigo da Erin... – O garoto respirava pesado com o animal nas mãos, o olhava com um misto de medo e pena, tremia dos pés a cabeça.

-E daí? Você é superior a sua irmã! Está sem comer a três dias por causa dessa frescura, desse seu coração mole. – A principio ele hesitava e isso irritava o pai, o que resultava em punição – Se não matar não come, se não comer você morre e se morrer nunca mais vai ver sua irmã! – Isso seria demais pra ele, pela terceira vez seu pai o segurou pelo pulso, fazendo o coelho cair aos seus pés e ficar ali parado, na típica ingenuidade dos animais. Sentiu aquela lamina fria do punhal tocar sua pele e ser puxada com força, desenhando outro corte feio no seu braço. Era a punição por sua teimosia, pelo seu coração mole.

-Um dia você vai me agradecer.

Foi nessa noite mesmo que ele não resistiu mais, depois que o pai tinha saído, não era pela fome que estava dilacerando seu estomago, mas pelo medo de não ver aquela garota nunca mais.

-Me desculpe... – Como se o coelho fosse entender.

Com aquele mesmo punhal ele fechou os olhos e deu a primeira estacada, mas o animal não morreu, entre os ruídos agudos de dor que sua “janta” soltava, vieram mais uma, duas, três, quatro punhaladas. Seguidas por soluços e choros, sentimentos de culpa piores que os cortes que latejavam pelo corpo do menino.
Nas primeiras vezes ela vomitava, não conseguia comer um animal “cru”, mas com o tempo se criam hábitos e costumes.
Foi esse o inferno em que ele nasceu, era nesse inferno que ele ia viver por longos anos. Mas quem disse que o inferno é ruim?
Todos dias ao amanhecer ela vinha, como um anjo, a única que se importava com ele, que o amava. Erin usava cabelos longos quando pequena, sempre trazia consigo água ou comida para o irmão. E ele se sentia sujo, se odiava, não conseguia encará-la.

-Kasu...

-Erin... Me desculpa, eu...

-Ele te forçou a fazer aquelas coisas horríveis de novo né? – As vezes ela chorava junto com ele, dependendo de qual dos seus animais tinha sido morto. Mas ela nunca o repreendeu, nunca o odiou por isso, bem pelo contrario, ela corria pra ele e o abraçava. O reconfortando com palavras gentis e esperançosas – Não é culpa sua... Esse ano eu vou entrar na escola, daí quando terminar e ganhar dinheiro a gente foge pra bem longe.

O sorriso dela o acalmava, era seu santuário, dava forças para ele resistir. Até os dez anos sua vida foi assim, sempre cheio de hematomas, ossos quebrados e cortes. Foi até um milagre que o corpo daquele garoto tenha se desenvolvido normalmente. Erin era sua única paz, sua única flor num jardim de espinhos, uma flor que não poderia secar. Podia viver sua vida toda assim, portanto que ela viesse toda manhã amenizar sua dor. Mas as coisas sempre pioram...
Um dia seu pai descobriu que Erin cuidava dos ferimentos dele, bateu nela, como fazia com ele. Foi ai que Kasuya descobriu o sentimento que iria guiá-lo pra uma saída. Na mesma hora, com aquela lamina velha e ensanguentada, ele apunhalou o pai.
A surra foi pior que todas outras que tinha tomado, quando o garoto não conseguia mais se mexer, o homem que também sangrava o arrastou pelos pés até um tipo de penhasco ali perto, foi erguido pelo pescoço e ouviu da boca de seu pai a primeira coisa que fez sentido para ele:

-Sem força você não pode proteger nada! – Com um olhar impiedoso ele soltou seu herdeiro de lá de cima, murmurando suas penúltimas palavras para ele – Seja um homem de verdade e sobreviva, volte pra me matar! E saiba que até você voltar ela vai sofrer o que você sofria e em dobro!

Foi a ultima vez que Kasuya chorou, chocou-se com alguns galhos na queda e quando chegou na terra, sentiu o sangue subir-lhe para a boca e alguns ossos lhe rasgarem a carne. Ficou estirado no chão como um inseto esmagado, porem seu encontro naquela noite não foi com a morte, foi com um homem.
Tetsuo Ishida era um homem que tinha seus 46 anos, forte e de médio porte, japonês elegante, trajava sempre roupas tradicionais e finas de seu país, de cabelos grisalhos um tanto arrepiados e um cavanhaque enfeitando o queixo, sua voz soava grave, não tinha encontrado Kasuya ali por acaso.

-Você é interessante moleque.

-Ele estava certo... Eu não posso protegê-la... – Golfava sangue e parecia delirar ali no chão, mas mesmo assim insistia em falar, Tetsuo riu daquilo. A resistência física de Kasuya era monstruosa desde criança.

-Uma pessoa normal já estaria morta no seu lugar, se você vive é porque tem algo de especial. Mas não é ele que tem a capacidade pra despertar seu verdadeiro potencial. – Aquele homem abaixou-se ao seu lado e lhe estendeu a mão – Venha comigo, eu posso lhe dar sua vingança.

Com esforço ele conseguiu erguer sua mão em melhor estado e tocou a do senhor do clã Ishida, foi ali que Kasuya selou seu destino.
Até os doze anos ele esperou e recebeu um treinamento de verdade, foram passados pra ele conhecimentos e técnicas antigas e mortais que haviam sido perdidas com o tempo e resgatadas por aquele clã Ishida, do qual seu mentor era líder.
O clã por si próprio parecia um tipo de máfia japonesa como a yakuza, porem era ainda mais oculto e perigoso. Os Ishida não se metiam nos problemas do mundo, portanto que os outros não se metessem nos seus, as maiores áreas de influencia daquele clã tradicional eram na Irlanda e no próprio Japão. Tetsuo estava residindo na parte norte daquele país europeu no momento, mesmo sendo japonês. O motivo? Kasuya.
O garoto recebeu não só treino físico, mas também mental. Teve professores particulares da tal “Black Rose” à qual o clã Ishida servia como membro, ele não fora parar ali por acaso, ele tinha sido selecionado pelo próprio Tetsuo para ser seu sucessor ao clã. E para isso Kasuya se tornou uma arma, um assassino altamente treinado, mesmo sendo apenas uma criança.
Ele deixou de conhecer a dor física e seu ódio lhe dava toda a força de vontade que ele precisou pra sobreviver até ali.
Foi nessa época que Tetsuo lhe disse que estava preparado, foi bem mais cedo que ele esperava, mas aqueles malditos dois longos anos que ele esperou deviam ter algum resultado. Por dois malditos anos ele não conseguia dormir bem uma noite se quer, pensando no que Erin poderia estar sofrendo nas mãos de seu pai; Por dois malditos anos ele esperou por aquele dia, se deixando corroer pelo seu próprio ódio. A hora de recuperar seu bem mais precioso tinha chegado, o dia em que eles seriam livres...
E esse dia passou estranhamente rápido. O líder dos Ishida enviou cinco vassalos com ele, e nisso os seis invadiram aquela antiga casa de campo e mataram todos que estavam ali. Empregados, familiares, guardas... A única exceção que Kasuya abriu era Erin.
Naquela noite a família conhecida como Nayami manchou as terras verdes das redondezas de Dublin com seu sangue. Um sangue que foi extinto ali, justamente por quem deveria tê-lo honrado.
Finalmente ele se encontrou ali, fazendo seu pai ouvir o que ele tinha pra dizer. E isso foi fácil demais, Kasuya tinha o superestimado, talvez treze segundos tenham sido o tempo suficiente para aquela lamina, ainda mais fria que a casa dos Nayami, estivesse atravessada no tórax daquele homem albino um pouco acima da meia idade.
O frio avassalador, o cheiro férrico de sangue, as mãos tremulas... Não por medo ou hesitação, sim por contentação, satisfação, prazer.

-Você disse que um dia eu iria te agradecer... – Tinha sonhado com o dia em que poderia mostrar seu jeito arrogante sem temer – Você errou... Mas eu me tornei o monstro que você quis que eu fosse.

O homem não tinha forças pra retrucar, quando tentava acabava se afogando no próprio sangue, fazendo-o verter pela boca assim como vertia de seu peito penetrado pelo metal. Mas conseguiu dar suas ultimas palavras ao filho, com os olhos rancorosos e cobertos por algumas mechas dos seus longos cabelos brancos.

-Você nunca vai conseguir ficar com ela Kasuya... Nunca!

O movimento seguinte foi rápido, assim que a espada saiu do corpo dele Kasuya acertou o mesmo durante sua queda, direto na garganta, pra ter certeza que ele não ficaria milagrosamente vivo. Observar o pai decapitado no chão o saciou a tal ponto que chegou a sorrir e só parou quando ouviu a voz de um dos homens de Tetsuo:

-Jovem mestre, nós matamos a mulher também.

-Não faz mal...

A “mulher” era sua mãe, embora ela fosse muito parecida com Erin fisicamente, nunca tinha ajudado ou confortado o garoto uma única vez. Ela não ofereceu resistência alguma quando viu que seu pai estava tratando ele como um animal, assistia aquilo tudo sem erguer um dedo por ele, nem desaprovava tais atitudes. Era submissa, fraca... Kasuya a odiava por isso.
Quando a carnificina acabou eles queimaram tudo e pegaram um voo de retorno a Belfast no norte. Fazia muito tempo que ele não via Erin, agora ela tinha se tornado uma bela moça. Eles ficaram lado a lado durante o voo, mas nenhuma palavra foi dita. Era como se os olhares que eles trocavam respondessem as perguntas um do outro. Erin adormeceu nos braços do garoto naquele dia, mesmo sem ter ouvido uma palavra dela, Kasuya pode sentir sua presença gentil e acolhedora. Seu vicio, seu bem mais precioso.
Ambos tinham mudado bastante nesses anos. De trapos Kasuya passou a usar roupas negras e finas de origem oriental, estava muito mais apresentável que antes. Sempre teve uma boa aparência, mas ela costumava se ocultar por causa da sujeira de seus “treinos” diários sem direito a banhos e coisas “vaidosas”.
Já ela estava em fase de crescimento, pré-adolescencia, o corpo dela ainda continuava com traços esguios e seus tons naturais ainda eram extremamente claros, a diferença era que agora ela tinha cortado os cabelos, os deixando até os ombros. Erin adorava roupas claras também e isso a fazia realmente parecer um anjo. Sua aura calma pacifica e mística acalmavam o ódio de Kasuya. Ele amava aquilo... Seu primeiro e único amor.
Já na capital do norte da Irlanda, Erin foi para seu quarto na mansão dos Ishida. O próprio Kasuya tinha preparado aquele lugar para ela há tempos, escolheu moveis, aparelhos, cortinas, roupas, cama, tudo... Ela pareceu adorar, após tanto silencio a menina decidiu soltar sua doce voz:

-Kasu, e a mamãe?

-Ela morreu também, sinto muito. –Foi como as vezes que ele tinha matado os bichos da irmã, mas ele não se emocionou com isso, nunca mais iria.

Erin notou que o irmão tinha mudado, ele não era mais o garoto sofredor, passivo e assustado de antes. Ele nem mais falava como uma criança. Mas Kasuya estava sentindo um medo terrível naquela hora, medo de ela passar a odiá-lo pelo que fez. Tinha se tornado um matador frio, impiedoso... Não merecia compaixão, muito menos o amor dela.
Mas Erin nunca foi como as outras pessoas, ela o amava sendo o que era e suas palavras acabaram deixando-o surpreso demais:

- Tudo bem Kasu... Eu te entendo, nós somos gêmeos, eu posso sentir o que você sentia. – Ela não sorriu, mas seu olhar bondoso acertou bem fundo – Agora nós vamos ficar juntos não é?

Ele não conseguiu segurar mais, caminhou até ela e a abraçou enterrando o rosto nos ombros da garota, um tanto sem jeito por não saber ser carinhoso, mas queria tentar mostrar o quanto gostava dela. Erin sempre soube o que passava pela cabeça do irmão melhor que ninguém, ficou levemente corada e retribuiu aquele abraço com algumas lágrimas nos olhos, eles finalmente estavam livres e juntos.
Depois de alguns minutos assim ela se afastou um pouco, e encostou sua testa na do irmão deixando seus rostos bem próximos, como costumava fazer quando pequenos e achava que ele tinha febre, com o mesmo jeito meigo.

-Senti sua falta, meu irmão.

-Estou aqui agora... E nada mais vai nos separar. Nada... Eu prometo. – Ele não conseguiria mais soltá-la se voltasse a abraçar a menina – Você é pessoa mais importante pra mim, Erin...

As duas semanas seguintes foram as melhores da sua vida, foi como um sonho. Eles estavam sempre juntos, visitando vários lugares em que eles nunca puderam estar, por conta de Tetsuo. Suas lembranças da irmã sempre iriam se basear naqueles dias. Ela conseguiu fazer com que alguém como ele se sentisse feliz.
Uma flor que não podia secar...

Depois desse período Tetsuo começou a mostrar o que esperava de Kasuya, disse que Erin estava amolecendo ele as vezes, mas o que irritou foi quando ele disse que ambos, como herdeiro e líder teriam que participar de um ritual da tal Black Rose. E Erin não poderia ir junto.
Kasuya se recusou, não queria se afastar dela um dia que fosse, mas acabou cedendo quando Tetsuo disse que não ir colocaria a vida dela em risco e levá-la também.
Porem o velho concordou em levá-la depois, deixa-la num hotel pra se encontrar com ambos depois, estavam indo pra Londres. Kasuya ia se arrepender de ter cedido naquele dia por toda sua vida.

-Você é ligado demais àquela menina.

-Eu quero ser, ela é tudo que eu tenho.

Esses tipos de respostas não agradavam Tetsuo, aquela viagem foi longa, ficar longe de Erin sempre era assim. O que ele mais queria era acabar logo com aquilo e voltar pra Irlanda. Ficaram dois dias num hotel em Londres, nada de Erin ainda e o tal ritual seria executado em breve.
O local era uma antiga mansão localizada numa área discreta da cidade, apesar de antiga era muito rica e aconchegante, Kasuya não gostou do ambiente assim que colocou os olhos nele. Um dos empregados daquele casarão levou os dois pra um tipo de subsolo, Tetsuo disse que aquela era uma das casas mais antigas de Londres e pertencia a família Sullivan, os lideres da Black Rose. Já dentro da sala que era o destino, eles receberam mantos e tiveram que vesti-los, Tetsuo de preto e Kasuya de branco. Mesmo achando bizarro o garoto de cabelos prateados achou melhor não questionar, só queria acabar com aquilo logo. Com velas nas mãos eles foram conduzidos pra um tipo de circulo de pessoas encapuzadas com mantos iguais aos deles, estavam em torno de uma piscina esférica preenchida com sangue e símbolos estranhos nas bordas. O cheiro daquele sangue era estranhamente leve, chegava até a ser agradável.

-Isso é mesmo necessário? – Ele não tinha um lado espiritual bom, talvez fosse ateu.

-Sim, é o ritual de juramento de lealdade à nossa futura líder. – Tetsuo por outro parecia levar aquilo muito a sério.

Os adultos diziam palavras em uma língua estranha, Kasuya notou coisas estranhas naquelas pessoas que estavam perto dele. Havia duas meninas da sua idade mais ou menos, uma de cabelos tingidos de uma cor exagerada pro gosto do garoto e olhos cinza, inexpressivos como os de sua irmã; a outra era morena de cabelos curtos lhe escondendo as orelhas e se encurvando para as bochechas, seus olhos eram praticamente amarelos, porém o mais intrigante foi a curta visão que teve de um dos “adultos”, era uma menina e parecia ser até menor que ele. Por que ela estava vestida de negro também, ao invés de branco como todas outras crianças?
O ritual se encerrou com a aparição de outra menina, mas essa surgiu daquela piscina de sangue como se estivesse se banhando nele. Aquele liquido vermelho lhe escorria pelos longos cabelos escuros e pelo seu corpo nu, também na pré-adolescencia, o que deixou Kasuya impressionado foi o olhar dela. Os olhos tinham um verde intenso, não gostou daqueles olhos desde o começo. Havia veneno neles, do mais cruel e mortal que poderia existir. Eram tão cativantes... Pareciam prendê-lo, tirarem-lhe a ação.

-Aquela menina é a herdeira dos Sullivan, sua líder e senhora a partir de hoje.

Tetsuo se adiantou aquilo finalizado, iniciou-se uma festa nos andares de cima, num salão grande e luxuoso, serviam vinhos e doces exóticos de todos os tipos. Mais ou menos cento e cinqüenta pessoas ali, vinte delas eram crianças. Kasuya manteve-se afastado, de braços cruzados ao lado de Tetsuo. Todos da sua idade pareciam correr por ali brincando e se divertindo, mas isso não era pra ele. Kasuya não era mais criança. Seu tédio o fez procurar com os olhos pelas meninas que tinha visto lá embaixo, a de olhos verdes da banheira de sangue foi a mais fácil, ela parecia ser o centro das atenções ali, as outras crianças tinham medo dela. A de cabelos coloridos tinha sumido dali, a morena de olhos amarelos estava sentada numa das varias mesas de madeira negra, parecia ser antissocial, pois se recusava a brincar com as outras crianças. Ela chegou a olhar pra Kasuya e riu, aquilo não foi nada agradável, também não gostou do olhar com traços felinos dela. Olhar para essa menina o fazia lembrar de gatos pretos de olhos amarelos. A única com quem aquela conversava era com outra menina também nos seus doze anos, cabelos lisos encurvados nas pontas, vermelhos vivos naturais, um tom de ruivo lindo. Os olhos dela não eram tão perigosos quanto aos da menina dos Sullivan, mas eram mais intrigantes. Tinham um tom verde-água parecido com um azul bem claro. Se fosse dizer só por seus olhos, Kasuya poderia afirmar que ela já tinha vivido por séculos. Tinham um ar sério e experiente, firmes. Ela só olhou pro garoto pra saber por que a sua amiga tinha rido. Tetsuo cochichou com sua voz grave pra ele:
-Essas são as meninas da família Velmont, são ocultistas reclusas... – Antes que ele continuasse alguém o chamou, o velho deu um tapa amigável nas costas dele e saiu dali, Kasuya foi para um canto mais isolado do salão, não gostava de ser observado.

Foi lá que alguém o encontrou, outra pessoa que mudaria sua vida pra sempre. Ele notou que alguém parou na sua frente e se inclinou na sua direção, tentando enxergar seu rosto, porem quando ele ergueu os olhos do chão se assustou com o fascínio que aquela mulher lhe causou. Ela também possuía aqueles terríveis olhos verdes.

-Kasuya Ishida hm? Você é muito quietinho. Comeram sua língua?

Cabelos negros longos e soltos, franja lhe cobrindo a testa, uma aparência que parecia ser difícil crer que ela era real e um perfume que a fazia ser a opção mais provável pro lado mais sedutor do diabo.
Anita Sullivan, obviamente Tetsuo já tinha mencionado aquela mulher pra ele. Até Kasuya perdeu-se em si mesmo na primeira vez que a viu.

-Por que você não brinca com as outras crianças Kasuya? – Ele não conseguia responder e ela nem esperava que ele o fizesse – Então vamos brincar nós dois, de esconde-esconde. Eu vou sair daqui e se você adivinhar aonde vou sem me seguir, te conto um segredo. – A mulher não esperou uma resposta de novo e deu as costas, sorrindo.

Kasuya nem notou quando foi que a perdeu de vista, ele nunca tinha se sentido assim antes. Quem ou o que era essa tal Anita Sullivan?

Kasuya não esperou muito pra começar sua busca e não foi difícil acha-la. Por um lado ele era bom em rastrear pessoas e por outro ela queria ser encontrada. Estava em um dos inúmeros quartos da casa, em uma parte deserta. Anita elogiou a rapidez dele e ordenou que ele se aproximasse, o garoto obedeceu.

-O que você ia me falar? – Ele desviou o olhar, mas podia sentir o peso do dela sobre si, a mulher continuou sentada apoiando o queixo sobre as mãos brancas e macias.

-É seu papai que está fazendo segredos.

-Quais? – Ela estava falando de Tetsuo.

-Não sabe nada sobre esse ritual, fofo? Ele mentiu pra você, sua irmãzinha veio pra cá umas duas horas depois de vocês. Ela estava presente no ritual. – Seu coração deu um salto ao ouvir isso, mas quando ela terminou o efeito foi ainda maior – Nós precisamos de sangue pra executá-lo, mais ou menos de umas seis pessoas. Adivinha quem contribuiu?

Ela sorriu ao ver a expressão no rosto dele, tinha que ser mentira. Kasuya não conseguiu ficar sob aquele olhar e saiu de lá, batendo a porta.
Tetsuo não poderia ter feito isso com ele, Erin chegaria no hotel hoje, estaria lá esperando por ele... Era mentira! Tinha que ser mentira.
“Esses jovens são tão energéticos...”

Quando chegaram no hotel Kasuya agiu com pressa, revirou todos cômodos, mas sua irmã não estava lá... Sentiu-se como se todas suas cicatrizes tivessem aberto ao mesmo tempo. Tetsuo tinha dado sua palavra...

-Cadê a Erin?

-O vôo dela foi cancelado de ultima hora, então já sabe.

-Eu vou telefonar pra ela.

-Não vai conseguir, o hotel está com problemas na linha. – Ouvir isso fez o mundo do menino desabar bruscamente sobre sua cabeça, não precisou ouvir mais nada, conseguiu segurar seu desespero e ficar quieto – Eu vou dormir você devia ir também. Amanhã voltamos pra Irlanda e você vê essa menina.

Kasuya não dormiu aquela noite, tentou usar todos telefones daquele hotel cinco estrelas, estavam sem sinal, inclusive celulares... Ele começou a delirar de tanto desespero, vendo o rosto de Erin, chamando seu nome e correndo sem rumo pelos corredores. Vozes ecoavam na sua cabeça naquele momento, fizeram-no ajoelhar-se no chão, roçando os dedos com força contra a cabeça.

“Ele te traiu!”
“Erin está morta!”

Ele berrou pra quem quer que fosse se calar, viu um atendente do hotel correr até ele perguntando se estava tudo bem.

“Ele mandou bloquear os sinais só pra você não ligar. Acha mesmo que um hotel desse calibre ficaria sem telefone por acaso? Abra os olhos!”

As vozes tinham razão... Estava tudo acabado... Por que ele não podia ser feliz como as outras pessoas eram? Por que com ele? Por que Erin?
Parecia que a maldição que seu pai lhe lançou tinha se cumprido, ele quis morrer ali. Ir junto com ela... Foram esses pensamentos que o fizeram perder a cabeça. Sentiu seu ódio voltar a queimar no peito como nunca, se viu apanhando a caneta de ferro no bolso do paletó vermelho do camareiro e a enfiar por inteiro no olho direito do homem. Viu-o cair morto no chão, agonizando um pouco antes. Perdeu a consciência...

Tetsuo Ishida acordou de uma forma peculiar, com a lamina da sua espada oriental preferida lhe varando a coluna vertebral e a cama. Antes de perder os movimentos nas pernas ele conseguiu espantosamente chutar o que tinha lhe atingido, por reflexo. Quase caiu da cama quando tentou se virar pra ver, estancou o sangue com as mãos mesmo.
Era Kasuya, o menino tinha passado por dois dos seus melhores homens sozinho. Mas bastou um olhar atento para ele notar que aquele não era bem Kasuya, seus olhos tinham um novo tom avermelhado.

-Kasuya... O que...

-Por quê?

-Você enlouqueceu?!

-Não se faça de idiota... – O olhar dele era frio, sua voz convicta – A líder me contou tudo que você estava me escondendo.

-Anita... – Tetsuo deveria saber... Anita havia indicado Kasuya, ela já planejava substituir o líder dos Ishida. O garoto só estava fazendo o que aquela mulher queria, o descartando como lixo.

Sacrificar Erin foi uma exigência dela, por isso ela tinha adiado o “resgate” da irmã de Kasuya. Para ele bater com a véspera do aniversário da sua filha, Victoria. O ritual... Anita tinha o manipulado, o fez comprar sua própria destruição. Aquele demônio no corpo de mulher planejou sua morte desde quando ele adotou Kasuya. Agora era tarde demais, ele tinha caído na armadilha. Não tinha mais necessidade de mentir pro garoto

– Se alguém é culpado pela morte dela, esse alguém é Anita Sullivan.

-Sim, eu vou atrás dela assim que acabar com você.

-Erin era sua única fraqueza Kasuya, eu só concordei com isso porque quis que você se tornasse invencível, um verdadeiro líder.

-Essa não era uma escolha sua! – Ele aumentou o tom.

-Não seja covarde pra fazer isso.

-Hunf... Você está velho. Mesmo se pudesse reagir... – Ele sorriu erguendo uma Magnun que tinha pegado de um dos seguranças que matou – Você não pode se esquivar de balas. Nós vamos nos ver de novo, se houver um inferno.

O tiro acordou quase o hotel todo e fez a policia ser acionada, o corpo de Tetsuo Ishida estava irreconhecível quando encontraram.
No seu caminho pro casarão Kasuya levou mais alguns pro outro mundo, todos que cruzaram seu caminho, mesmo sem consciência disso. Sete policiais, três inocentes e quatro membros da Black Rose. Ele não soube como conseguiu matar tantas pessoas seguidamente assim, se sentia incansável, indestrutível. Mas mesmo isso não saciou sua sede de sangue. Ele só reganhou sua consciência quando chegou onde queria, estava exausto depois do seu descontrole, fedia a sangue, suava e sua cabeça latejava violentamente, mas o pior era o seu coração estraçalhado.
Tinha conseguido, estava cara a cara com sua líder e com uma pistola nas mãos.
O estranho foi que ela parecia já estar esperando ele...
A arma estava apontada, mas ele não conseguia puxar o gatilho. Ela sorria pra ele, sentada na cama onde estava, apenas com uma camisola elegante negra, seus lábios pareciam pedir pra que ele atirasse e riram quando ele não conseguiu. Tinha disparado essa mesma arma contra vários pra chegar ali, por que não conseguia mata-la também? Eram aqueles olhos, aquela voz, aquela aura sinistra que envolvia o quarto...
O que diabos aquela mulher era afinal?
Essa duvida sempre surgia, como isso era possível? Seu corpo não se movia se fosse pra prejudicá-la.
Anita se cansou da demora e apontou pra trás dele manhosamente. Kasuya estava tão pasmo que nem percebeu quando Kaori Ayako surgiu das sombras nas suas costas, e nem perceberia se tentasse... Era o fim.
O próprio Tetsuo Ishida admitia que não era páreo pra ela, nem no seu auge. Três segundos foram suficientes pra derrubá-lo e desarma-lo.
-Sua revolta acaba aqui homenzinho. – Ayako tinha se colocado em cima do torso do menino, prendendo os braços dele com seus pés e se sentado no seu peito. A mulher sabia como ser uma assassina sexy, uma bad girl e tomboy ao mesmo tempo.
A força daquela ruiva era incrível, ou talvez ele ainda fosse um pirralho de doze anos...
Ou os dois.
Foi sua vez de sentir uma lamina fria na garganta.
A ultima coisa que viu foram os olhos cinzas, o dragão tatuado abaixo de um olho da mulher de cabelos vermelhos flamejantes.
Finalmente seu sofrimento ia acabar, mas ele duvidava que fosse pro mesmo lugar que sua amada irmã tinha ido.

Anita foi piedosa, como sempre era.
A doce e divina Anita... Ela o deixou viver.
Acorrentado no porão daquela casa por uns dias, até que foi visitá-lo. Como Erin costumava fazer, Anita limpou seus ferimentos, os fios de sangue que escorriam da sua cabeça, os cortes e escoriações nos seus braços e tórax. Naquele momento Kasuya parecia uma criança normal, uma criança que tentava, mas não conseguia chorar.

-Por que não me mata? Não me deixa ir pra perto dela?

-Você acha que vai se encontrar com ela se morrer, lindinho? – Sua senhora começou a acariciar seus cabelos prateados, como uma mão com um filho pródigo, ele se calou – Ela se foi, não seja bobo e deixe isso no passado. Você é um dos meus, aja como tal.

-Por que ela tinha que morrer?

-Oh bem... –
Anita se afastou sorrindo de um jeito maldoso – Regras são regras, mas não se preocupe. Ela não sofreu... Muito.

O garoto foi tomado pela fúria novamente e gritou, avançando contra ela com um cão feroz, as correntes o impediram. Ele ficou a encará-la com os olhos vermelhos cheios de ódio e bufando, Anita riu deliciosamente, abafando os risos com os dedos. Devolveu o olhar, exibindo o seu próprio, cheio de fascínio.

-Oh! Esses olhos! Eu amo esse brilho no seu olhar, é divino, lindo! – Ela se inclinou na direção dele, segurando-lhe o rosto com as mãos, como se fosse beijá-lo ou arrancar seus olhos – Agora você percebe? Você é diferente da sua irmã. É exatamente igual aos que mataram ela e destruíram a vida de vocês.

Anita estava certa, o pior era odiá-la mais do que ele odiava a si mesmo e não conseguir fazer nada contra ela, nem conseguir erguer os olhos pra confrontar aquele olhar aterrador. Mais uma vez a distancia tornou um ataque possível, mas ele não se moveu. Mesmo cerrando os dentes e punhos ele não conseguia fazer nada

– Não posso deixar seu atentado ao clã Ishida sair impune. É como n uma loja, se quebrar tem que comprar. – Aqueles seus lábios tentadores e rubros não paravam se exibir um sorriso cheio de malicia – Os Ishida precisam de um líder como você, não de um rato mentiroso como aquele velho inútil.

O tom do sorriso de Anita mudou de novo, pra um carinhoso de uma forma estranha, maldosa. Ela assoprou os cabelos da testa do menino e os ajeitou com os dedos e o abraçou de um jeito terno, murmurou pra ele com calma, uma calma que o afetou também. Fazendo sua fúria cessar subitamente.

-Eu sou generosa, vou devolver sua irmã. Vou te mostrar caminho pra isso, mas você terá que segui-lo sozinho.

Kasuya se surpreendeu com essas palavras, seria mesmo possível ressuscitar alguém? Ele se calou em sinal de consentimento e Anita se mostrou satisfeita, lhe presenteou com um doce beijo na testa. Um beijo que tornaria sua existência ainda mais amaldiçoada.

-Bem vindo à Black Rose, criança. – Foi o que ela disse nos ouvidos de Kasuya antes de sair dali. A bondosa e gentil Anita...

Aos quinze anos ela já tinha lhe mostrado qual ritual poderia supostamente trazer sua irmã dos mortos, estava tudo pronto, ele tinha se tornado o líder dos Ishida apenas pra isso. Teria que esperar mais alguns anos segundo Anita para poder realizar o tal ritual, mas por Erin ele esperaria o tempo que fosse.

-Quer que leve sua bagagem senhor?

O seu vôo era pra Sleepy Hill, ele ia deixar o clã sob o comando dos adultos pra cuidar de seus assuntos pessoais, tirar longas férias solitárias naquela cidadezinha.
Não importava... Se fosse pra estar com Erin de novo ele pagaria qualquer preço.
Ele seria o vilão.
Sacrificaria quem quer que fosse.
Sem se dar ao luxo de hesitar.

“The worst kinds of devils aren’t those who choose to live in hell, are those who were born there and choose to live silently among us.”

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Capítulo Extra - Lembrança

As duas garotinhas estavam lá sonolentas, esperando a professora apresentar a tal aluna nova pra classe. De fato, era estranho alguém entrar assim no meio do mês.

-Yuriko-chan, como você acha que essa nova aluna é? - Quem perguntou foi a menina de cabelos ondulados loiros escuros, de olhos azuis bem claros brilhantes.

-Não sei. Você esta muito curiosa com isso, Yuna-chan. – E quem respondeu foi a menina de cabelos e olhos castanhos claros que estava sentada ao lado da outra. Yuriko e Yuna ainda estavam no primário quando ouviram a professora anunciar:
“Digam oi pra Elisha Sayonomi-chan turma!”, Yuna a olhou empolgada e foi a que disse aquele “Ooooi Elisha-chan!” com mais vontade entre os da turma. A pequena Elisha nem respondeu ao cumprimento, seus olhos sob o cabelo negro não demonstravam sentimentos e nem emitiam aquele brilho infantil.

-Sejam bonzinhos com ela, pois ela perdeu a mamãe recentemente. – Complementou a professora. Era uma informação desnecessária e indelicada.

Yuna tinha a observado desde esse dia, e Elisha não falava com ninguém desde que entrou no colégio. Só ficava lá olhando pro céu pela janela. Yuna levou um tempo pra juntar coragem e ir falar coma nova colega, que sempre estava solitária. Aproximou-se dela com cautela, colocando as mãos atrás das costas e esboçou o melhor dos seus sorrisos, perguntou pra ela inocentemente:
-Por que você está sempre sozinha Elisha-chan?

-Quem se importa? – Ela nem olhou pra Yuna quando respondeu.

-Aah... Eu me importo. – Yuna corou, se esforçando ao máximo pra manter o sorriso, cutucando o chão com o pé. – Queria ser sua amiga...

-Eu não quero amigos. Vai embora. – Elisha abaixou a cabeça, séria.

-Se é por causa da sua mãe, eu lamento. – Ela parou de sorrir e deixou a vergonha vencer, estava muito constrangida.

-Lamentar não vai trazer ela de volta! Eu disse pra ir embora! – A voz de Elisha saiu alta, mas o que assustou Yuna foi aquele olhar de ódio que ela lhe lançou.

-Me desculpa... – Os olhos de Yuna se encheram de lágrimas, ela não queria ter irritado Elisha. Não conseguia falar mais nada que não fosse interrompido pelos soluços – Eu... Eu só... – Ela tinha estragado tudo, sem nem entender o que disse de errado. Pediu desculpas de novo e saiu correndo não conseguindo mais segurar o choro. Yuriko que estava perto correu atrás da amiga, deixando Elisha sozinha de novo.

Yuna ficou o dia todo chorando escondida dos professores acompanhada das suas amigas Aileen e Yuriko, ela queria demais se aproximar de Elisha e ter acontecido do jeito que aconteceu acabou com a alegria dela. As duas estavam inconformadas com aquilo, não paravam de dizer que Elisha era má e tentar consolar Yuna. Isso feito, Aileen a mandou ir lavar o rosto, com todo seu ar de moça crescida mesmo sendo uma criança. A cabeça de Yuna estava doendo e seus olhos ardendo de tanto chorar, entrou no banheiro e lavou o rosto com água gelada, pensando em como Aileen era legal, ao contrario de Elisha. Mas ouviu um choro baixo, se virou para ver e percebeu que aquilo vinha de uma das cabines. Curiosa, ela se moveu silenciosamente, se deitando no chão pra olhar por debaixo da porta e acabou se surpreendendo com o que viu.
Era Elisha que estava lá chorando. Sozinha, ajoelhada no chão, desesperada e escondida das pessoas. Há quanto tempo ela devia estar lá? Devia ser assim todo dia.

“Ela não é má. Só está triste...”

Foi o que Yuna pensou antes de sair correndo para contar pras amigas, mesmo com os berros de Aileen pra ela deixar de ser boba, Yuna ficou animada novamente. O sinal tocou e ela pegou sua mochila indo pra saída, prometendo a si mesma que um dia ela iria ajudar Elisha voltar a ser feliz como devia ser antes, mas se deparou com uma cena nada agradável.

-Gostei do que você fez com a lerda da Yuna, agora você é minha amiga.

Era Megumi que estava puxando Elisha pelo braço dizendo que ia levá-la pra sua casa pra elas brincarem. Elisha não reagia agressivamente, só falava que não queria ir com ela algumas vezes, mas Megumi não ligava e continuava a arrastá-la pra saída, mas ela viu Yuna e parou, falando em voz alta:

-Olha! É a chorona! Dá o fora, a Elisha é minha amiga agora. Ela não gosta de você.

Yuna ficou calada por uns segundos, sem conseguir encarar Megumi. E olhou pra Elisha, esperando que ela falasse algo por si mesma e ela falou:

-Vai embora.

Megumi começou a rir, apontando pra Yuna, e a garota não entendeu porque Elisha se deixava levar pela outra e tinha reagido tão agressivamente com ela. Yuna era tão chata e desinteressante assim? Os olhos dela se encheram d’água de novo e ela fugiu chorando como antes, se sentindo a menina mais ridícula e irritante do colégio.

-Por que Yuna? Desde o primário aquela menina só te maltrata, e agora ela anda com a Megumi que adora te humilhar. Por que você insiste?

Os anos tinham passado agora elas eram mocinhas e estavam na oitava série, mas o jeito de Aileen criticar Elisha quando Yuna falava gostar dela não havia mudado, e nem o jeito esperançoso de Yuna falar sorrindo para as amigas que um dia a veria sorrir.

-Vocês não entendem. Ela não é o monstro sem sentimentos que vocês dizem, só é uma menina triste. Aquela atitude é só proteção dela! – Defendeu Yuna.

-A Yuna fica tão melosa quando o assunto é a Elisha!- Riu Yuriko.

Yuna ficou sem graça, chamando as amigas de chatas enquanto Aileen a chamava de boba. Yuriko olhou pra amiga maliciosamente e disse:

-A amiga da sua namorada vai dar uma festa! Aproveita e se declara nela.

Dessa vez até Aileen entrou na brincadeira e começou a mexer no cabelo de Yuna:

-É Yuna, quem sabe ela esteja bêbada e te beije!

A garota quase engasgou com a saliva quando disse o “Não é nada disso!” ficando extremamente vermelha. As duas ficaram rindo da reação de Yuna, enquanto ela decidiu ir à festa sim. Não estava disposta a desistir de Elisha.
Tinha virado uma rotina pra Elisha freqüentar a casa de Megumi só pra fazê-la parar de insistir, mas nesse ultimo ano ela estava mais irritante que nunca.

-Pára de ser careta! Você já tem quatorze anos. Todo mundo já fez isso.

Por mais que ela disesse não querer, Megumi não parava de tomar decisões por ela e isso estava irritando Elisha profundamente, principalmente quando era esse assunto.

-Não dá nem pra acreditar que você ainda é bv! Amanhã nessa festa você vai perder toda essa sua pureza viu? Bianca e Amanda já fizeram também, só falta você. Já combinei tudo com um cara do segundo ano que eu arrumei pra você. Daí depois eu peço pra minha mãe te adotar, mas só depois de você virar mulher de verdade, adulta.

Não era algo que ela queria fazer só pra calar a boca da amiga. Aquilo era ridículo, desde quando era necessário se fazer isso pra ser adulto? E ela nem conhecia o tal “cara do segundo ano” e era o corpo dela. Se ela deixasse Megumi decidir mais isso por ela, ia ser assim pra sempre. Mas o que ela tinha a perder além daquilo que a “amiga” queria que tirassem dela pra poder virar uma “mulher adulta”?

O dia da festa chegou, a casa de Megumi era bem grande, luxuosa e ela conseguiu organizar aquilo como se fosse uma profissional, tudo bem iluminado e bonito, comida e bebida de todos os tipos de graça, piscina gigante aquecida, quiosques com jogos de luzes iguais as de uma discoteca, música boa e bem alta (No momento algum som bem tecno de t.a.t.u. seguido por outros nomes como Chemical Brothers, ou versões de balada de bandas como Evanescense ou Linkin Park), oito quartos de hospedes estavam vagos, meninas com corpos de mulheres e ingênuas perambulando por ai, garotos que só tinham algo em mente seguindo elas, meninas piores que eles, polícia subornada pra não estragar tudo aquilo, enfim aquela seria uma noite pra se lembrar.
Yuna, Aileen e Yuriko ficaram impressionadas com aquela festa, parecia uma festa de aniversario de quinze anos, mas era uma simples festa de fim de semana, Megumi tinha talento pra organizar essas coisas pelo visto. E Yuna disse as amigas que ia dar uma volta por lá, queria tentar achar Elisha, e as duas disseram que tudo bem e pra ela tentar não demorar. Yuriko estava empolgada com um cara que tinha conhecido semana passada na praia, o nome era Taichi e ela não parava de falar nele, que iria entrar no colégio Dark River e estudar junto com elas no ano que vem, a sua voz sumiu na medida em que ela e Aileen sumiram no meio da multidão. Yuna achou Elisha perto da piscina bebendo refrigerante de limão e correu pra ela, elogiando o vestido preto que a garota estava usando e tentando puxar assunto, Elisha soltou um “Só o que me faltou”. Yuna estava indo mal na sua tentativa de aproximação quando foi interrompida por Megumi, que disse pra Elisha, ignorando a presença de Yuna lá:

-Elisha, está na hora!

-Eu não vou, prefiro ficar aqui. – Respondeu olhando pra Megumi de canto de olho.

-O que?- Berrou Megumi- Então vai desistir desse jeito?

-Eu nunca disse que iria.

-Então ta, sua criançona! – Ela saiu quase soltando fumaça pelas ventas, não acreditando que Elisha tinha desobedecido.

Yuna ficou surpresa e de certa forma feliz em ver que existia um atrito entre as duas, e que Elisha não estava abaixando a cabeça pra esse tipo de coisa.

-Isso foi legal, Elisha-chan! Sabia que você gostava de mim. – Brincou ela, sorrindo.

-Eu não gosto de você. – Elisha foi sincera.

Megumi notou essa conversa delas e cochichou com Amanda que se aproximou discretamente das duas. Elisha notou, e conhecia bem Megumi pra não ter notado o que ela planejou com Amanda, que esbarrou em Yuna “sem querer” e a fez perder o equilíbrio, escorregar e cair dentro da piscina, se afogando.
Ela odiava se afogar, água entrando pelo seu nariz, fazendo seus pulmões arderem, a falta de ar, o desespero, aquilo tudo foi horrível e ela nunca soubera nadar bem. Dessa vez teve sorte e conseguiu se agarrar a uma das bordas da piscina e se jogar pra fora dela, tossindo e toda encharcada.
Mas isso não era o pior, além de ficar com o nariz ardendo por causa de respirar tanta água e com a cabeça doendo, todos começaram a rir dela, menos Elisha que apenas ficou observando o vestido branco da menina que agora alem de destruído, estava transparente e seus cabelos molhados que lhe caiam incomodamente pelo rosto. Yuna sentiu um aperto enorme no peito e corou, tentando de tudo pra se cobrir, enquanto as pessoas ficavam fazendo comentários maldosos e “elogiavam” seu corpo maliciosamente. Nunca tinha ficado tão constrangida na sua vida inteira como naquela hora, mas isso não era o pior ainda.

-Viu Elisha? Se você der conversa pra essas meninas idiotas, você fica idiota que nem elas. – Megumi estava certa, era sempre assim. Yuna se esforçava tanto pra se aproximar de Elisha e sempre a irritava ou fazia algo pra estragar tudo, por que ela não conseguia algo tão simples?

Com seu ego jogado no chão e pisoteado de novo, Yuna começou a achar que devia desistir de Elisha e deixá-la ao lado de pessoas legais, talvez elas conseguissem devolver a alegria daquela menina, coisa que uma inútil como ela era incapaz.
Ela abaixou a cabeça olhando pro chão pra não ter que encarar Elisha naquela situação ridícula, cobriu o rosto não conseguindo evitar o choro, os soluços e os comentários irônicos das pessoas que ainda riam dela a chamando de criança, chorona e afins. Ninguém se quer tentou ajudá-la ou consolá-la.

-Vem Elisha, deixa essa chorona idiota. O cara está te esperando.

Megumi pegou Elisha pelo braço, mas para o azar dela a morena tinha percebido o quanto ela os odiava e o quão estúpidas eram todas aquelas pessoas. Por que humanos viam graça na humilhação? Ela não achava ruim que eles se matassem, bem pelo contrario. Mas por que tanta covardia com a idiota da Yuna, que nunca fazia mal a ninguém?Se um anjo caísse na terra, ela tinha certeza que os humanos o matariam.
Ela não entendeu por que aquela cena a irritou tanto, mas sentir Megumi a segurar bruscamente pelo braço foi a fagulha que faltou. Ela odiava cada um daqueles porcos, e não estava mais afim de viver em paz com aquilo. Se deus não fazia justiça, ela decidiu fazer pelo menos dessa vez e acertou o rosto de Megumi sem piedade.

-Já disse que não!

O soco fez a loira cair na piscina e se erguer como Yuna que começou a olhar aquilo confusa e enxugando as lagrimas, o vestido transparente e acabado de Megumi fez mais sucesso que o de Yuna, mas a loira começou a ofender Elisha que respondeu a olhando com desprezo:

-Eu não sei o que eu quero, mas tem algumas coisas que eu tenho certeza que não são: Eu não quero ser sua amiga, eu não quero ser adotada pela sua mãe, eu não quero nada de você! Tenho vontade própria sua burguesinha mimada, então não enche!

Elisha deu as costas e foi embora, ouvindo Megumi gritar:

-Depois de tudo você faz isso? Sua falsa amiga! Eu vou acabar com a sua vida!

-Eu não tenho uma vida pra você acabar com ela. – Foi a ultima resposta.

Yuna a alcançou em passos rápidos e a chamou pelo nome.

-Eu não fiz isso por você. Só não suportava mais ela. – Adiantou-se Elisha

-Eu não disse nada. – Yuna sorriu- (Eu sabia que você não era o que eles diziam... Eu sempre soube...) – Lançou um olhar carinhoso pra ela e completou fora dos pensamentos – Obrigada, Elisha-chan.

A garota fez uma cara de quem está sem jeito no começo, mas depois olhou Yuna como quem não se importava e foi embora.
Aileen e Yuriko finalmente a acharam ainda olhando Elisha ao longe.

-Vamos Yuna, senão você vai se resfriar. – Aileen pareceu perturbada com tudo aquilo.

-Ela parece satisfeita! – Yuriko riu ao ver o sorriso no rosto de Yuna.

-Eu ainda vou te ver sorrir. – Elisha não podia ouvir, mas Yuna disse mesmo assim.

-Você não tem jeito... – Disse Aileen desapontada, levando a amiga embora.

O tempo passou rápido, e agora elas já estavam no terceiro ano. Esse ano já estava quase no meio e em breve elas iam se formar, Yuna sentia algo estranho fazia alguns dias e quis falar com Elisha mais uma vez antes das férias, era como se elas não fossem se ver mais por um longo tempo. Achou Elisha no terraço do colégio olhando pro céu como sempre fazia.

-Elisha-chan! Olhando pro céu de novo!? – Parou do lado de Elisha que ficou em silencio – Gostei da gargantilha, ficou bonita. Ia arrasar nas festas da turma, mas a ultima que você foi era aquela da oitava serie. – Elisha ainda não falou nada, só olhou de relance pra gargantilha que tinha comprado e começado a usar desde o primeiro colegial, então Yuna continuou – Eu entendo seus motivos. Depois daquele dia você se afastou de todos mais ainda e até comprou essa gargantilha que parece uma coleira. Acho que é pra mostrar pra todos que você é dona de si mesma...

-Eu comprei porque é legal. Não tem nenhum significado melodramático por trás disso. – cortou Elisha. Yuna quase caiu no chão de vergonha depois daquela, mas conseguiu falar mais um pouco:

-Ah é... Naquele dia você disse não gostar de mim.

-Eu ainda não gosto de você.

-Eu sei. – Ela sorriu sem graça – Mas você nunca me disse por quê.

Elisha olhou pro céu novamente e falou bem baixo:

-Seu jeito de ser me lembra minha mãe. Desde o primário você sempre fica com esse sorrisinho na cara o dia inteiro e ela também tinha essa mania. Como ela foi a única pessoa de quem eu gostei, isso me irrita.

Yuna se surpreendeu de novo, mesmo após todo esse tempo. Então Elisha tinha notado como ela era desde pequena. Era isso... Ela finalmente tinha entendido porque a colega sempre a evitava e a tratava com frieza. Sorriu de novo, tão sinceramente satisfeita e emocionada como nunca estivera antes.

-Não fique imaginando coisas. Eu não disse que gosto de você. – Disse Elisha finalmente olhando pra ela, percebendo o que Yuna pensou.

-Mas um dia você ainda vai gostar muito de mim. – A resposta de Yuna foi rápida, ela ergueu o indicador e o dedo médio pra Elisha e sorriu seu melhor sorriso, da forma mais bela e mais carinhosa que ela já tinha sorrido, olhando pra morena – Prometo!

Elisha ficou sem ação diante daquilo e virou acara, pra desviar o olhar. Yuna soltou um risinho e perguntou se Elisha não ia falar mais nada. A resposta foi um bocejo.

-Quer saber? Não precisa falar mais nada. – Yuna começou a olhar pra mesma direção que ela, ainda sorrindo – Porque pra mim já está ótimo poder ficar assim... Do seu lado.

E sentiram uma brisa confortável tocar suas faces, Elisha respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos, voltando a abri-los olhando serenamente para as nuvens enquanto Yuna sustentava esse mesmo olhar, olhando praquele mesmo ponto, elas ficaram ali observando as nuvens por quase uma hora e meia.

“Ela se foi... E lamentar não vai trazê-la de volta.”

O que Elisha diria se soubesse que aquela seria a ultima conversa delas?
Alguns dias depois ela ouviria o rádio e os colegas de classe anunciarem aquela noticia sobre Yuna. A banheira, a água, as possibilidades de assassinato, o esquecimento.

“Yuna...
Obrigada Yuna.
Obrigada por não ter desistido de mim por todo esse tempo.
No fundo eu sei que você ainda vai estar sempre aqui comigo, sorrindo.”

“Eu nunca fui capaz de te perder realmente,
E nunca vou te perder. Prometo.”

So... Let our little game go on.